Lanterna Verde e Arqueiro Verde: o aprofundamento político dos heróis nos quadrinhos

Apesar de lançada no início dos anos 1970, Lanterna Verde e Arqueiro Verde é uma história que se passa na década de 1960. Época marcada fortemente por conflitos políticos, protestos, queima de convocações para serviço militar, hippies, Beatles e Led Zeppelin; como aponta o roteirista Dennis O’Neil na introdução de relançamento da HQ da coleção Grandes Clássicos da DC do início dos anos 2000.

Para muitos, a reunião dos dois heróis é um dos marcos do início da era de bronze dos quadrinhos. Anteriormente, as histórias sobre super-heróis carregavam tons caricatos e maniqueísta e foi justamente a reunião do roteirista Dennis O’Neil e do desenhista Neal Adams, numa época em que a DC Comics pensava em reinventar os seus personagens, que a série surge trazendo novas perspectivas discursivas.

Naquela época, as HQs eram consideradas perigosas à moral das crianças e tratadas com desprezo por uma elite intelectual que as consideravam “analfabetismo funcional”. Nesse sentido, os quadrinhos ainda hoje carregam um forte preconceito quanto ao seu valor artístico, principalmente pelo fato das história de heróis serem tão comuns nessa plataforma. Esse tipo de narrativa carregava características que, de certa forma, justificavam esse pensamento. Afinal, na primeira metade do século XX, os quadrinhos de super-heróis apresentavam narrativas simples, por vezes pobres, com pouca ousadia estética e discurso político limitado, servindo como ferramenta para propagar os interesses políticos dos EUA. Porém, muita produção ao longo do mesmo século quebrou esse estigma.

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Quadro histórico de “O mal sucumbirá ante a minha presença”, primeira edição da série “Lanterna Verde | Arqueiro Verde”

Lanterna Verde e Arqueiro Verde talvez seja o primeiro passo para questionamentos morais e políticos dentro dos quadrinhos de heróis. A história apresenta um Lanterna Verde no seu papel clássico, representante dos Guardiões da Galáxia no Planeta Terra, uma espécie de policiais do universo. Inicialmente vemos o personagem fazendo uma espécie de ronda em Star City, quando encontra um jovem agredindo um homem mais velho. Sua reação, obviamente, é socorrer o homem e prender o agressor, porém, o que não se esperava é que a população ao redor da briga reagisse negativamente, jogando pedras e lixo na cabeça do herói.

É justamente nesse momento que surge o Arqueiro Verde e questiona toda a lógica do Lanterna:

“- Aquela senhora ali é vó do moleque que cê mandou pro xilindró! Ela tem 80 anos… e depende do neto pra viver. O Mike teve que largar a escola e descolar um emprego chinfrim… por que ela não tem ninguém que sustente!
– É triste… Mas, caramba, ele desrespeitou a lei!
– Tecnicamente, sim! O Mike ficou nervoso, se descontrolou e partiu pra cima daquele bolo-fofo que é dono deste moquifo! O pulha não gasta um centavo pra fazer conserto! Agora, ele acha que derrubar o prédio e transformar em estacionamento dá mais grana. O gordão quer despejar os inquilinos e jogar todas essas famílias no olho da rua! Este prédio é um lixo… mas eles não têm outro lugar pra morar!”.

O Arqueiro Verde é o antagonista do Lanterna Verde. Enquanto Lanterna apresenta uma personalidade mais conservadora, com traços profundos de respeito a uma moral estabelecida, a ordem e a hierarquia sem questionamentos, o Arqueiro é anárquico, problematizando todas as noções que para o primeiro eram coisas estabelecidas. Desse encontro de diferentes visões surge a necessidade de entender melhor a humanidade e sua complexidade. E é daí que ambos decidem cortar os Estados Unidos numa espécie de road-comic em busca desse conhecimento.

O ponto mais interessante do início dessa história é justamente esse primeiro encontro. O Arqueiro joga o Lanterna na parede através de um forte discurso de classe e a resposta do segundo é algo do tipo: “é o meu trabalho, estou seguindo ordens!”. Logo após essa fala surge um terceiro personagem, um senhor negro que apresenta, talvez, um dos quadrinhos mais antológicos de toda a história da arte (imagem acima).

Nas edições seguintes à primeira publicação são apresentados conflitos onde os personagens questionam a justiça e as lógicas de poder estabelecidas pelas estradas dos EUA. São mostradas situações de trabalhadores explorados (com direito a uma espécie de capitão do mato), demarcação de terras indígenas, xenofobia, fascismo e conflitos de classe. O personagem do Lanterna passa por uma profunda reflexão sobre seu papel na humanidade, o que de certa forma, pode ser encarado como uma reflexão sobre o papel político dos super-heróis dentro própria indústria de quadrinhos.

A visão preconceituosa sobre super-heróis dos quadrinhos refletiu em outra plataforma. No cinema, uma parte do público encara essas histórias como produto enlatado, filmes escapistas, blockbuster com conteúdo raso. O universo Marvel nos cinemas, por exemplo, realmente não se preocupa em trazer novas perspectivas estéticas e discursivas para esses filmes. Essa é a proposta da produtora que está mais preocupada com o entretenimento do seu público. O que é um grande mérito. Porém, particularmente, na contramão dessa lógica, acredito que essas produções podem contribuir bastante em termos de gênero, linguagem e crítica social na sétima arte.

Jornalista e roteirista, Dennis O’Neil não se comprometeu com a realidade em si em Lanterna Verde | Arqueiro Verde, porém se preocupou com temas da realidade da sua época e deu visibilidade aos anseios e preocupações de movimentos sociais e de grupos excluídos, apesar das limitações. Durante todo o final do século XX, os quadrinhos ganharam contribuições em vários aspectos, aprofundando sua narrativa, estética e discurso, sem perder o valor de entretenimento. O cinema também pode conseguir.

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